quarta-feira, 17 de agosto de 2022

 

PDM - Stephen Wallenfells



Imagine um dia comum. Pessoas na rua, cuidando de suas vidas. Ou, ainda em casa, dormindo tranquilas. De repente, um som ensurdecedor á ponto de congelar seus pensamentos irrompe do nada, enquanto esferas gigantescas, além da imaginação, cinzentas e metálicas (?) começam a flutuar nos céus, sinalizando uma manifestação extra-terrestre em nível global.
Uma invasão perfeita e violenta, incluindo raios letais desintegrando seres humanos em segundos. Eletricidade, telefone, tv, rádio, internet cortados, baterias e pilhas inutilizadas. Encurralados nos abrigos que porventura tenham encontrado, os "sortudos" sobreviventes da onda genocida passam a enfrentar o medo do desconhecido e do extermínio, a falta de notícias de parentes e amigos, o confinamento e a crescente escassez de comida e água.  À medida que o tempo passa, a insustentabilidade da situação começa a trazer à tona outra ameaça: o egoísmo e a selvageria humanas mostrando suas caras feias por baixo do verniz ralo da civilização - o que explica o subtítulo "Sobreviver a um cerco alienígena é um feito,  Sobreviver à humanidade é outra história"

E é à partir desse ponto que o livro brilha ainda mais. Como toda boa ficção cientítica, a obra de estréia de Stephen Wallenfels (POD no original) disserta sobre os nossos tempos, a raça humana e o que a compõe, de feio e de belo.  Atos de violência, opressão, ganância e covardia - mesmo num momento limite como esse. E atos de coragem, ternura, confiança e solidariedade - mesmo num momento limite como esse. Em certas partes, o livro lembra bastante "O Ensaio para a Cegueira", de José Saramago.

A narrativa se alterna entre o ponto de vista de dois adolescentes: Josh de 15 anos, confinado em casa com seu pai, e Megs de 12 anos, presa em um estacionamento, à espera da mãe, que logo voltaria.
O ritmo do texto é tenso, econômico, irônico e apesar do tema pesado, nunca resvala para o dramalhão, tampouco foge da emoção.
Os personagens são ótimos, desde os secundários, como o pai de Josh, a mãe de Megs e  tia Janet,  até os protagonistas. Josh e Megs, às vezes, são chatos e teimosos como todo adolescente; Mas também honestos, vulneráveis e valentes a maior parte do tempo (especialmente Megs, escolha totalmente pessoal, os dois são muito legais) e tentam preservar suas ingênuas integridades apesar do colapso geral.

Outra qualidade do livro é que não se esforça para dar respostas, não se tem ideia de quem são ou o que querem os invasores, nem o motivo de seus atos hostis.Permanecemos tão no escuro como os personagens - pelo menos, por enquanto, já que o segundo livro já está para sair nos EUA (mal posso esperar!), com o título de "Monolith".

O final reforça a imensa fragilidade humana frente ao desespero, mas também ressalta a capacidade das pessoas de forjarem generosidade e abnegação quando menos se espera, mesmo que de forma absurda ou extrema.

(Postado originalmente em 05/11/2014
Meio Literal)

A Mansão Hollow



Mansão Hollow
 - Agatha Christie

Um história de Hercule Poirot

Sinopse:
"Poirot é convidado para almoçar na mansão Hollow em um fim-de-semana organizado pela anfitriã, Lady Lucy Angkatell. Quando chega, ele encontra uma autêntica cena do crime, mas em um primeiro momento pensa que é uma representação para comemorar a sua presença, mas o crime é bem real."

Passei grande parte da minha adolescência devorando os livros de Agatha Christie. Havia uma biblioteca perto de onde eu morava na época, que possuía um acervo bem extenso de seus romance policiais. Alguns, eu comprei e tenho até hoje. Um dos primeiros livros que li no original, ainda estudando inglês, foi dela, “Cards on the Table/Cartas na Mesa” e é um de meus favoritos.

Já fazia um tempinho que não lia nada dela: novos autores, novos interesses, falta de tempo, falta de biblioteca próxima, meio que me afastaram dela. Mas semana passada tive uma reaproximação, como não podia deixar de ser se tratando de Mrs. Christie – fatal! Que me fez me reapaixonar por ela e me lembrar o quanto AC escrevia bem, como sua prosa era fluida, exata, despretenciosa, e seus personagens, apaixonantes.

O livro que li (ou melhor, escutei, pois era um áudio book) foi A Mansão Hollow, que ainda não havia tido a sorte de encontrar.

- UM APARTE-

Costumo dividir mentalmente as obras da tia Agatha em três categorias:
- Espionagem e aventura – Geralmente passados nos anos 1920, logo após a 1ª GGM, os protagonistas são quase sempre um casal moderninho, composto de uma garota esperta e durona e um rapaz (aparentemente) bobo e louco por ela. Ex: O Inimigo Secreto; O MIsterio dos Sete Relogios; Aventura em Bagdá.

- Os Crimes sofisticados – Os grandes assassinatos resolvidos por Hercule Poirot ou Miss Marple. São divertidos, caudalosos e cheios de reviravoltas. Ex: Morte no Nilo; Assassinato no Orient Express; Um Corpo na Biblioteca; Treze à Mesa.

- Os Sombrios – Embora AC sempre recheasse seus personagens com motivações psicológicas bem interessantes, em alguns livros ela aprofundava essa característica. Os “sombrios” são mais densos, tem um desenvolvimento mais detalhado, com personagens mais facetados, Todos são permeados por uma atmosfera sutil de inquietação, pesadelo ou loucura. Sempre foram os meus favoritos. Ex: A Casa Torta; Cai o Pano; Noite Sem Fim; Cipreste Triste; Um Pressentimento Funesto.

E agora, A Mansão Hollow – minha nova obsessão.
A trama me fisgou no capítulo inicial e me deixou pendente de sua originalidade até o final.
Assim que acabei, corri para a comunidade AC para ver os comentários sobre ele e descobri que as opiniões são divididas. A Mansão Hollow tem uma legião de devotados admiradores e outra de detratores que o consideram a pior obra de AC.

Os que não gostaram, apontaram que o livro se detém demais na descrição dos personagens, que há muita enrolação e o crime demora a acontecer, os personagens principais não são muito simpáticos , Poirot é praticamente um figurante, o final é anti-climático.

É tudo verdade e é o que o torna, IMO, uma obra prima da inglesa.
Poirot, de fato, entra praticamente no meio do livro e, francamente, não fez falta (isso vindo de uma grande fã do belga metido).

O desenrolar da trama não depende dele, tampouco o crime ou sua solução. Não é quem comete o crime que importa e sim o porquê.
Nesse livro, AC se esmerou em apresentar uma galeria personagens extraordinários, dando voz, sem medo, a seus pensamentos, sentimentos, contradições e defeitos, pressagiando o crime que não há como não acontecer e isso pode ser encarado como ‘enrolação’, além de deixar os caracteres vulneráveis e ‘antipáticos’, já que conhecemos suas verdades nem sempre bonitas.

O trunfo de “The Hollow” são mesmo os personagens, pessoas muito diferentes entre si, com um ponto em comum: todas são, de alguma forma, escravizados por seus passados, o que as impede de ter um presente pleno e torna o futuro impossível.

A começar pela peça chave e catalisador da tragédia, John Christow e sua abissal falta de maturidade emocional. Seu egoísmo e egocentrismo incomoda e constrange. Poucas vezes vi uma autora ser tão corajosa ao apresentar um protagonista frontalmente antipático e prepotente.

John Christow é um médico e pesquisador brilhante, cheio de compaixão e entusiasmo por (alguns) pacientes. Mas um marido abusivo e um pai indiferente. Christow é um narcisista deplorável, paralisado pela frustração de ter feito uma escolha romântica que julga equivocada. Seus defeitos o tornam muito humano e real (eu mesma já conheci alguns John Christows) mas nem um pouco simpático ou relatável. Ao mesmo tempo que dá pena ver que sua tomada de consciência veio atrasada e insuficiente, ele causa repugnância.

Sua obsessão pelo passado afeta Gerda, sua esposa burra e bitolada, que o venera como a um deus e, por sua vez, vive presa na ilusão da idolatria. Afeta seu amor de quinze anos atrás, Veronica. Afeta a enigmática e fascinante Henrietta, a mulher que o ama como ele é e parece confortável com seu papel de amante.

Com melancolia, percebemos que o passado irá, fatalmente, aprisionar os filhos de John e Gerda, os pequenos e sensíveis Terry e Zena, marcados pelo pai negligente e a mãe descuidada. AC foi especialmente delicada ao descrever a solidão profunda que apenas crianças são capazes de sentir. Terry e Zena são desenhados de forma encantadora, que nos faz desejar acompanhar suas jovens vidas.

Mas não apenas o passado doloroso aprisiona aqui.
Henrietta, assim como seus primos, a corajosa Midge Hardcastle e o tímido Edward Angkatell, se vêem enlaçados pelas memórias de uma infância de completa felicidade e sonho, que nada na vida adulta é capaz de igualar, fazendo-os ignorar a felicidade real ao alcance das mãos.
E a tia, a adorável e etérea Lucy Angkatell, outra personagem fantástica, capaz de qualquer coisa para perpetuar o passado de importância e gloria dos Angkatell.

Apenas Poirot está a parte desse círculo vicioso e por isso ele é apenas um observador distante da situação.
Óbvio está que o livro me apaixonou e me deixou parcial, mas ele não tem defeitos? Tem!

Talvez a própria AC tenha percebido que foi longe demais em sua descrição impiedosa de John Christow e produziu várias partes louvando e enfatizando as qualidades dele. Nesses momentos eu tinha vontade de gritar: “Ok, Agatha, já entendi, é pra gente gostar de John e ver que embora cretino, é digno de amor!” Mas há controvérsias...

Agatha também me parece um tanto esnobe, sempre muito mais favorável aos nobres doidinhos Angkatell e bem menos tolerante com a plebe rude. Ela, inclusive, não é nada politicamente correta ao se referir a uma determinada etnia no livro (LOL)

O final é realmente anticlimático, embora ardiloso, e Poirot mostra a que veio.

E chegamos à conclusão desse ensaio sobre o apego ao conhecido e o medo de se arriscar e viver plenamente. Alguns deles amadureceram e sobreviveram. Outros, não. Mas através de um deles, concluímos que é possível seguir em frente, mesmo tendo que pagar um preço por isso.

(Publicado originalmente em 03/10/2010
Meio Literal).

  PDM - Stephen Wallenfells Imagine um dia comum. Pessoas na rua, cuidando de suas vidas. Ou, ainda em casa, dormindo tranquilas. De repent...